Cryptograma: o que realmente valida uma transação com cartão
Explico o que é cryptograma no contexto EMV e wallets digitais, como ele é gerado, como o emissor valida, diferenças entre ARQC e AAV, impacto do ECI e erros comuns de integração que afetam aprovação e fraude.
No meu dia a dia trabalhando com integrações de pagamento, eu já vi esse cenário várias vezes:
Estamos usando token, então está seguro.
Mandamos o wallet indicator, então está tudo certo.
E quando você vai investigar a queda de aprovação ou o aumento de fraude… o problema está no cryptogram.
Muita gente implementa tokenização, 3DS, wallet, mas não entende o que realmente prova que aquela transação é legítima na camada de rede. E essa prova, na maioria dos casos, é o cryptograma.
Hoje eu vou explicar o que ele é, como funciona por trás dos panos e por que ele impacta diretamente aprovação, risco e chargeback.
O que é um Cryptograma?
Um cryptograma é um valor criptográfico gerado dinamicamente para uma transação específica.
Ele funciona como:
- Prova de posse da credencial
- Prova de integridade da transação
- Mecanismo anti-replay
Se alguém interceptar a mensagem e tentar reutilizar, não funciona.
De onde ele vem? (EMV explicado rápido)
O cryptograma nasce dentro do padrão EMV (Europay, Mastercard, Visa).
O EMV é o padrão global que define como cartões com chip funcionam.
Quando você insere um cartão físico na maquininha:
- O terminal envia comandos para o chip
- O chip responde via APDU (Application Protocol Data Unit)
- que é basicamente o formato de mensagem de comunicação com o chip
- O chip gera um cryptograma único para aquela transação
Esse cryptograma é chamado de:
- ARQC (Authorization Request Cryptogram)
Ele é validado pelo emissor.
Se válido → transação pode ser autorizada Se inválido → negada
E no e-commerce?
No e-commerce tradicional (cartão digitado), normalmente não há cryptograma EMV real.
Mas quando falamos de:
- Apple Pay
- Google Pay
- Click to Pay
- Tokenização de bandeira
Existe sim um cryptograma digital.
Nesse caso:
- Ele é gerado com base em chaves armazenadas no Secure Element ou ambiente seguro
- É enviado junto com o token (DPAN)
- A bandeira valida antes de encaminhar ao emissor
Analogia simples
Pense no cartão como um cofre.
O token é uma cópia controlada da chave.
O cryptograma é a assinatura digital que diz:
Essa chave foi usada agora, nessa transação específica, nesse valor específico.
Sem essa assinatura, o sistema não confia totalmente.
Tipos de Cryptograma que você vai encontrar
1. ARQC
Authorization Request Cryptogram Gerado para autorização online.
2. TC
Transaction Certificate Gerado quando a transação é aprovada offline.
3. AAC
Application Authentication Cryptogram Indica rejeição offline.
No mundo digital, você também pode ouvir falar de:
- AAV (Accountholder Authentication Value)
- Cryptogram de wallet
Eles não são idênticos ao ARQC físico, mas cumprem papel semelhante de prova criptográfica.
Como funciona por trás dos panos
Vamos simplificar o fluxo técnico:
- Dados da transação são montados:
- valor
- moeda
- data
- terminal id
- O cartão (ou ambiente seguro) usa:
- uma chave simétrica secreta
- contador de transação
-
Ele aplica um algoritmo criptográfico (geralmente baseado em 3DES ou AES)
-
Gera o cryptograma
O emissor possui a chave correspondente.
Ele recalcula o cryptograma do lado dele.
Se bater → válido Se não bater → fraude ou erro de integração
O que pode dar errado na prática?
Aqui entra a parte que pouca gente fala.
1. Campos inconsistentes
Se você altera:
- Valor
- Moeda
- Indicadores de segurança
Sem manter coerência com o que foi usado para gerar o cryptograma, ele falha na validação.
2. ECI incorreto
O ECI (Electronic Commerce Indicator) indica o nível de segurança da transação.
Se o ECI não condiz com o tipo de cryptograma enviado:
- Pode perder liability shift
- Pode ter downgrade
- Pode aumentar fraude
3. Integração incompleta de wallet
Já vi casos:
- Enviando token
- Mas ignorando cryptogram
- Ou mapeando campo errado no adquirente
Resultado? A transação vira basicamente um cartão digitado comum.
Impacto real em negócio
Cryptograma bem implementado significa:
- Maior taxa de aprovação
- Menor fraude
- Liability shift quando aplicável
- Menos chargeback
Cryptograma mal implementado significa:
- Transação tecnicamente “válida”
- Mas com risco elevado
- E potencial prejuízo financeiro
Diferença entre Token e Cryptograma
Eu sempre explico assim:
- Token substitui o número do cartão
- Cryptograma prova que a transação é legítima
Um sem o outro é solução incompleta.
O que você deve levar disso
Se você trabalha com pagamentos, entenda:
- Cryptograma não é detalhe técnico.
- Ele é a camada criptográfica que sustenta a confiança da transação.
- Wallet sem cryptograma correto perde boa parte do benefício.
- Integração mal mapeada pode destruir taxa de aprovação.
Antes de discutir fraude ou taxa de conversão, devemos sempre revisar:
Estamos enviando corretamente o cryptograma e o ECI?
Se você nunca validou isso na sua integração, vale revisar agora.
No próximo artigo eu posso aprofundar em:
- Como o emissor valida um ARQC
- Diferença prática entre ARQC e AAV
- Como o ECI influencia liability shift
- Erros clássicos de integração que derrubam aprovação
Porque em meios de pagamento, segurança e aprovação andam juntas, e o cryptograma está exatamente no meio desse caminho.